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JESUS SE FEZ PRESENTE NO MEIO DA DOR
Éber Luís de Lima Stêvão - Cirurgião Bucomaxilofacial
Era quase meio do ano de 1998 e fui surpreendido pelo telefonema de um amigo dizendo que uma missionária Canadense, que já tinha ido à Angola, um dos países do sul africano, gostaria de conversar comigo, pois quando soube da minha área de atuação profissional, sentiu de Deus que deveria me fazer um convite. Marcamos um encontro para nós três no Shopping Müller, em Curitiba, e conversamos sobre o trabalho missionário em Angola. Soube um pouco das necessidades daquele país pela experiência dessa missionária, vi fotos do povo (uma nação com 11,7 milhões de pessoas) e fui tocado pela pobreza daquela gente (expectativa de vida de 42 anos) que fala a língua Portuguesa assim como nós, pois fomos colonizados pelo mesmo povo europeu sendo que o sul do Brasil recebeu milhares de escravos Angolanos.
A partir desse momento, passei a orar para que Deus confirmasse se era da vontade dEle que eu participasse do próximo grupo que iria para Angola dar ajuda profissional e espiritual. Cada vez mais passamos a ter reuniões para discutir sobre a viagem, missão, os alvos a serem lá alcançados. Lembro-me que orei várias vezes com sinceridade no meu coração dizendo essas palavras a Jesus: "Senhor se tu queres que eu vá até esse país que muito pouco conheço, terás que ir comigo e se fazer presente. Não digas que enviarás um anjo para estar ao meu lado, pois não aceitarei. Se tu estás nesse negócio, quero a Tua presença, pois isso me fará descansar". Orei exatamente três vezes a mesma oração até que recebi uma resposta de que Ele estaria bem junto a mim. Não estava cobrando do Senhor Jesus uma atitude, como se fosse um filho exigente, mas quem sabe meu espírito antecipava uma batalha espiritual e se preparava para a luta que se travaria comigo ali em Lubango, segunda maior cidade de Angola.
Chegou a data para viajarmos e tinha no meu coração o sentimento de estar obedecendo o chamado do Senhor para a minha vida. Chegamos em Lubango em novembro de 1998 para passarmos um mês no meio daquele povo empobrecido, desesperançado, sofrido, abandonado mas muito gentio e amigo.
Lembro que após o primeiro dia de reconhecimento do local, andanças, contatos com o povo, etc., no final da tarde, contemplando a espalhada cidade à frente da janela da cozinha, chorei de tristeza e desespero e perguntei a Deus o que estava fazendo ali naquela terra de tanta miséria! Ao sair do Brasil tinha o sentimento que iria poder ajudar, mudar, construir um sonho naqueles corações. Sinceramente, tinha perspectivas que os feitos seriam grandiosos para a glória de Deus. Mas, vendo as condições e a tristeza nos olhos daquele povo, chorei e pedi que Jesus me desse forças, pois sabia que o texto de João 15:5 "...sem Mim nada podeis fazer" era mais do que verdade, era uma realidade.
Ainda me vem à memoria o som do choro das mães carregando os pequenos caixões de seus filhos recém-mortos pela "miséria". São "cantos-lamentos" em forma de choro que saem do mais profundo da alma e isso percebi quando, algumas vezes, acompanhei de longe as pequenas procissões que aconteciam ao redor da casa-sede do nosso grupo missionário. Angola é um dos países de maior mortalidade infantil perdendo apenas para a Etiópia (taxa de mortalidade de 1 para cada 3 crianças antes de completar cinco anos de idade). Muitas delas morrem de desnutrição (46% com falta de peso), falta de saneamento básico causando epidemias ou da violência da guerra. Veja o testemunho de duas delas: "Ofereci-me como voluntário para me juntar ao exército porque estávamos a sofrer muito na minha aldeia... queria defender a minha província e ajudar a minha família com os produtos que pudesse obter das emboscadas militares..." (criança de 15 anos); "Os sobas tinham de abastecer o exército com soldados da sua área... fui retirado da escola pelo soba directamente para a base, onde tive treino militar durante três meses antes de partir para ir em missões" (criança de 12 anos). Na capital do país, Luanda 82% da população vivem sem emprego, em estado de pobreza absoluta. Alguns dizem que a Angola é o pior país para se nascer do mundo.

Figura 1. Crianças Angolanas mostrando severa desnutrição.
Foi um mês de intensas atividades. Fizemos muitos trabalhos, falei para os jovens da JOCUM, oramos por pessoas, dividimos nossas refeições com muitos irmãos que vinham nos visitar constantemente. Não tínhamos água potável nem eletricidade. Tínhamos que tratar com cloro a água do rio que era trazida pelo caminhão-pipa da missão Asas do Socorro e colocada no poço da casa. Essa foi nossa água para consumo durante o período que lá estivemos.
Atendi muitas pessoas, basicamente realizando extrações dentárias e pequenas cirurgias. Tive o meu primeiro contato com o cancrum oris (ou noma, uma infecção gangrenosa, normalmente acometendo a região da bochecha, causada por bactérias sensíveis à penicilina, e que ocorre em crianças imunodeprimidas, normalmente após um ataque de sarampo) acometendo uma menina de 9 anos de idade que pela pobreza e desnutrição parecia ter seus 5-6 anos. Lembro-me que operando essa pequena alma sofredora, numa sala cirúrgica sem condições alguma e apenas um técnico como anestesista, controlando uma sedação endovenosa e uma pequena bolsa de soro fisiológico, durante a ocorrência de um sangramento mais ativo comecei a dizer: "Meu Deus, põe a tua mão aqui porque muito pouco ou nada posso fazer, meu Deus, oh Deus...".
Com o Dr. Duncan, médico cirurgião geral, missionário norte-americano em Angola há mais de 14 anos, fomos visitar vários postos médicos em diferentes vilarejos nas proximidades de Lubango. Compartilhávamos a fé em Jesus Cristo primeiro e depois atendíamos os doentes. Lembro-me que num desses locais chamado Mompata, todos sentados na entrada da clínica, profissionais de saúde e pacientes (um grupo de aproximadamente 100 pessoas que vieram para atendimento), um senhor mais idoso pertencente ao grupo étnico dos Mucobaios falou o que nos foi traduzido: "Não queremos ouvir falar dessas coisas, queremos remédio".
Várias foram as experiências. Também tivemos um final de semana com os mutilados de guerra, que em geral no país representam quase uma totalidade de 1/3 da população. Angola se contitui no país mais solo minado do mundo (são mais de 15 milhões de minas espalhadas pelo território em 40 anos de guerra civil iniciada pelo maligno comunismo; 1,2 mina-solo para cada habitante) e várias pessoas acabam tendo seus membros dilacerados ao pisarem sobre bombas. Começamos bem cedo a atividade com aqueles homens e mulheres de corpos incompletos, muitos deles etilistas. Já era por volta das 10 horas da manhã quando percebi que um homem, arrastando-se sobre o seu tronco, adentrou a sala onde Jesus estava sendo falado e o texto daquele manhã era do médico Lucas capítulo 5, versos 12 e 13: "Senhor, se quiseres, podes limpar-me. Ele, estendendo sua mão, tocou-lhe, e disse: Quero, sê limpo!" Fui conversar com este homem após termos orado por vários deles e ele disse que sentia muito de ter chego tão tarde, mas tinha perdido a sua carona até o local onde estávamos e teve que se arrastar por várias horas até que pudesse ali chegar.

Figura 2. Jovem militante, mutilado de guerra.
Na última semana da nossa estada em Lubango comecei sentir os sintomas da malária que contraíra. Na noite quando a dor e a febre se intensificou, um médico Uruguaio que trabalhava no Hospital Geral de Lubango, veio me medicar com comprimidos de quinino. A luta espiritual então começava. Entre os calafrios, delírios pelo quadro febril e momentos de melhora, percebi no quarto o encômodo da presença de um ser que me dizia: "Você vai morrer aqui. Daqui você não mais voltará". Quando começava a orar e pedir misericórdia a Deus aquela batalha cessava por alguns momentos e depois reiniciava. Até que pedi que Jesus viesse estar comigo e num determinado momento quando clamei pelo Senhor, toda a dor e luta sumiu e percebi uma claridade que preenchia todo o ambiente e uma paz profunda se fez. Então ouvi uma voz: "Você não Me pediu que Eu estivesse pessoalmente junto com você? Eu estou aqui". O meu choro e alegria eram intensos. Passei a conversar com Jesus e perguntei porquê aquele sofrimento. E Ele me respondeu: "O Meu corpo também sofreu e sei a tua dor". Não entendia o motivo pelo qual estava passando por aquela provação, mas Jesus me afirmou que um dia eu compreenderia o motivo. As suas palavras foram confortantes e desejei que Ele não mais partisse dali, mas que ficasse ao meu lado. Não o vi, mas a Sua presença preenchia tudo e a Sua luz clareava todas as trevas. Chorei profundamente de alegria pelo Seu inefável amor, em ouvir e responder a oração de um simples homem. Foram os momentos mais doces que já experimentei. Dormi e acordei no dia seguinte com o meu corpo sarado.
O data de voltarmos ao Brasil chegou e na alvorada do dia fui até a praça central da cidade. Ali sentei, orei e chorei. Era possível contemplar as montanhas ao fundo da cidade e senti uma sensação de tarefa completada como nunca antes. Falei com Deus dizendo que muito pouco ou quase nada tinha feito. No interior do meu coração o Espírito Santo me revelou: "A plenitude de paz que está invadindo o teu coração não é por quem você é ou pela tua capacidade, mas por ter se disposto a ouvir o Meu chamado. Procuro vidas que queiram Me ouvir e Me servir, pois sou Eu quem faço através delas. Essa é a Minha paz".
Os dados fornecidos aqui sao atuais e representam uma realidade descrita pelo ONU.
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