Nunca será demais, nem insuportavelmente enfadonho, enfatizar que os velhos de hoje foram os jovens de ontem. Tudo o que agora estremece de emoções os jovens, lá no passado dominou o coração de alguém. Sonhamos hoje o que um dia foi nossa ardente visão. Toda visão empolgante dos jovens será seu sonho de amanhã.
Os sonhos e as visões sempre hão de acompanhar os homens. Ninguém, por mais que realize em vida, se dará por satisfeito com tudo o que fez e realizou.
Recentemente ouvimos Dercy Gonçalves, famosa artista brasileira, que teve uma vida de sucesso, privilegiada longa velhice e o reconhecimento de seus talentos, dizer que a televisão não dava oportunidade para continuar trabalhando. Por tudo o que realizou, o que fez e alcançou, ainda tem no coração desejo de realizar. O sentimento é que tudo passou tão ligeiro, muitas coisas ficaram para trás, e ainda há muito que se pode realizar.
Portanto, pode-se concluir que até mesmo quando as pessoas se dizem satisfeitas, é apenas um modo de dizer que nem tudo foi mal ou insucesso, todavia continuamos anelantes e desejosos por alguma coisa a mais. A Bíblia fala de três coisas que nunca se fartam e de uma quarta que nunca diz basta: "a sepultura, a madre estéril, a terra, que se não farta de água, e o fogo, nunca diz: basta". Os desejos de realizações, sem dúvida, podem ser acrescentados à lista das que nunca se fartam.
A visão está diretamente ligada à compreensão que temos das coisas e do mundo. A multiplicidade das coisas ampliam a compreensão das possibilidades e a percepção da largura, da altura, da modalidade, da finalidade e da profundidade com que concebemos o mundo na nossa interiorização; esta somatória compõe a extensão de nossa visão. Quanto mais detalhes e facetas observamos no diamante da vida, vemos aumentar as possibilidades de nossas realizações, e quando somos surpreendidos pela velhice, nos entristecemos, compreendendo que na maioria nossos sonhos não serão realizados - nossos sonhos foram, na verdade, maiores que uma vida tão breve podia realizar.
Chego a pensar que não é bom ter uma grande visão de realizações na vida, pois não haverá que lamentar na velhice, quando muitos sonhos não foram realizados. Isto parece nos levar a uma obvia visão pessimista. Todavia não é aí que vamos chegar, embora visão e sonho estejam extremamente relacionados numa proporção sempre crescente: quanto maior a visão tanto maior os sonhos.
Meu avô Antônio era analfabeto, minha avó Catarina sabia ler e escrever. Como casal viveram juntos a vida toda. Ambos tiveram as mesmas visões da vida como imigrantes italianos que a vida fez o encontro aqui no Brasil. Tiveram 9 filhos e apenas um, naqueles idos dias de escassos recursos da saúde, a vida não permitiu chegar a idade adulta. Todos os demais se fizeram homens trabalhadores e honrados. Por assimilação, na longa convivência, era de se esperar que ambos tivessem as mesmas visões e desejos até o final de suas vidas. E chegando à longa velhice tivessem os mesmos sonhos, mas não foi assim que eu os conheci.
Meu avô tinha claramente as conclusões de Salomão: que a vida não passa de uma eterna rotina, e a longevidade é enfadonha para a carne. Em sua avançada velhice, demonstrava-se satisfeito. Dizia ele: "já vi tudo o que a vida tinha a me mostrar". Para ele, se tivesse ficado solteiro seria melhor, pois a vida lhe teria dado menor sofrimento. Minha avó sempre contrariava suas idéias. -"Não está bom assim, tendo filhos e netos? Seu pai era tão feliz", referindo-se ela ao meu bisavô, quando via toda a nossa grande família, porque na sua mocidade pensara que nunca veria seus filhos e chegou a ver seus bisnetos. Quando meu avô queixava-se das lutas e dos sofrimentos da vida, minha avó sempre se opunha. Finalmente concordava ele: "Nunca tive uma dor de dente, nem uma dor de barriga, o dia que tiver será o dia de minha morte". Mas não sentiu dor nem na hora da morte. Pediu a sua filha Zelinda que o levasse ao banheiro; dando alguns passos apoiado nela, esmoreceu totalmente: estava morto.
Minha avó amava a vida, queria ver seus netos e bisnetos. Gostava de contar histórias de sua família, o passado da velha Itália, de seus avós, seus pais, de seu casamento, de seus filhos, era uma mulher de memória privilegiada. Com ela retrocedemos até mil setecentos e cinqüenta e tais, quando seu bisavô resolveu voltar para Paris: "Depois de alguns anos da queda de Napoleão, a vida melhorou por lá". O velho Montagner, meu quinqüavô, que tinha sido soldado de Napoleão, deixou seu filho, já naturalizado italiano em Údine. Nunca mais se viram.
Com a morte de seu avô em Údine, seus pais resolveram vir para o Brasil, deixando lá duas de suas irmãs que já eram casadas. Também nunca mais se encontraram, não obstante receberem cartas que com o passar dos anos tornaram-se mais raras, até nunca mais recebê-las. Eram tantas coisas que minha avó contava, tantos sonhos de sua vida, tantas recordações de sua mocidade. "Como era bonito seu avó Antonio quando moço", dizia ela. Como todos os jovens, amaram-se intensamente. Lamento não ter escrito todos os detalhes que dela ouvi, antes que aquele velho e lindo arquivo se fechasse para sempre.
Todos os sonhos de meu avô já estavam realizados. A vida nada mais tinha para apresentar-lhe. Era o ciclo da vida que já tinha dado a sua volta. Daí sentir-se satisfeito com a vida. Tinha poucos motivos para continuar vivendo: "já vi tudo que a vida oferece. Ninguém da minha família viveu tanto como tenho vivido. A vida é uma eterna repetição". Minha avó, cuja leitura abrira um leque maior da beleza e dimensão da vida, tinha alegria de viver, de trabalhar, de recordar, de contar para os filhos e netos como as coisas aconteceram no seu passado.
Assim toda visão maior resulta num sonho maior que não tem possibilidade de ser realizado em sua plenitude, pois a vida é extremamente breve. Se pararmos no meio do caminho, restará apenas frustrações, cujos sentimentos serão o de que poderíamos ter realizado mais; se continuarmos até às últimas forças, seremos tomados no meio de nossos anos, outros darão ou não continuidade. Somente Deus, que na terra se fez homem, pôde dizer: "Está consumado". Ele fez tudo, em seus poucos anos, o que veio fazer. Só dele está escrito: "Ele verá o trabalho de sua alma e ficará satisfeito".
Ao homem deve restar apenas a satisfação de ter chegado a compreensão de que seus dias são extremamente breves, como a linda flor que hoje perfumou o seu lugar, mas amanhã já não existirá mais. Apreciar e alegrar-se com o que realizamos é algo muito natural, mas vangloriar-se que a obra foi concluída é clara evidência de quão limitada era nossa visão e completamente desprovida de sonhos. As visões dilatam o alcance de nossas vistas, assim como os sonhos são para serem sonhados. No fim tudo, o que nos deve restar são as alegrias de ter tido o privilégio de uma grande e linda visão que possibilitou nossos sonhos.
Felicidade não consiste na apreciação das realizações, mas no viver sonhando.
Sonhos são visões que jamais alcançaremos. Sonhar é viver. Sonhar é sofrer. Tenho sofrido muito, porque sempre vivi sonhando. Um sonho lindo que nunca vejo concretizado, por mais que luto, todavia desejo continuar sonhando, e se houver tempo contá-los a meus netos: como este mundo seria feliz se de repente meus sonhos se tornassem em realidade. Até o fim continuarei lutando por eles.
Quem transitou por estas plagas da existência humana e não sonhou, não passou na verdade por aqui, ou passou sem visão e nem se deu conta disto!

Gilberto Stevão
Pastor