Desde criança eu brigava todos os dias. Por duas vezes, ainda na adolescência, fui internado em uma instituição para menores delinqüentes. Já nessa época eu sonhava em um dia entrar para o mundo da Yakuza. Esse desejo se fortaleceu quando comecei a cursar o colegial. Eu conheci dois veteranos da escola que, ao se formarem, um se tornou yakuza e outro um assalariado. Só que o yakuza estava sempre cercado de mulheres bonitas, tinha muito dinheiro, dormia de dia e à noite ia passear, divertir-se. Era tudo o que eu queria.
Um dia eu me envolvi em uma briga muito feia na escola, e acabei sendo expulso. Então abandonei os estudos e decidi tornar-me um yakuza. Com isso, aos 23 anos de idade eu já havia construído uma grande casa e tudo o que era possível fazer de errado eu fazia. Desde pequeno eu tinha um talento especial para fazer maldades.
A Guerra de Osaka
Há pouco mais de vinte anos, no entanto, quando eu estava em Osaka, meu bando entrou em confronto com outro bando de yakuzas por questões relacionadas com a exploração de jogos de azar. Só que eu tinha sob meu comando pouco mais de cem homens, e o nosso oponente era a maior e mais bem estruturada "família" de yakuzas do Japão, composta por mais de 15 mil pessoas. Não dava para brigar, mas o código de honra dos yakuzas não nos permitia ficar passivos diante das provocações e dos problemas que nossos concorrentes vinham nos causando.
Assim, teve início uma série de confrontos, que se prolongou por três anos e resultou na morte de aproximadamente 20 pessoas. As brigas com troca de tiros eram quase diárias, e repercutiam na TV, nos jornais, rádios e revistas. Em um desses confrontos, que ficaram conhecidos no Japão como a Guerra de Osaka, matei o chefão do outro bando. Fui preso, e durante cinco anos vivi em uma cela apertada. Mesmo lá, no entanto, meus inimigos tentaram me matar, para vingar a morte de seu chefe. Mas, pela graça de Deus fui preservado.
Um anjo na rota do pecado
Quando saí da penitenciária comecei a viajar, percorrendo a Coréia, Formosa, e Tailândia. O objetivo era comprar estimulantes, alucinógenos, armas e pedras preciosas para vender no Japão. À Coréia eu ia sempre com dois objetivos: comprar drogas e me divertir com mulheres. E enquanto estava lá eu fazia isso todos os dias. Mas, como ninguém é de ferro, às vezes eu procurava uma companhia apenas para conversar e me acalmar. Em uma dessas ocasiões pedi a um amigo coreano que me arrumasse uma mulher mais séria e recatada. Então ele me apresentou a uma moça, uma cristã fervorosa, que se interessou em me conhecer para aprender o idioma japonês. Por isso, começamos a nos encontrar, mas nos limitávamos a tomar café ou a fazer as refeicões juntos e nos separávamos. Mas, quando estava com aquela mulher eu sentia paz. Podia esquecer os problemas que enfrentava no Japão como chefão de um bando de mais de cem homens, sempre correndo risco de vida.
Depois de um ano de relacionamento, pedi aquela mulher em casamento. Sem saber que eu era um yakuza, ela orou muito pedindo a orientação de Deus. E o Senhor Jesus disse a ela: vá para o Japão. A recebê-la no meu país, fiquei muito feliz...
O poder do amor e da oração
Em casa, minha esposa continuava orando muito. Depois de aprender melhor o idioma, começou a orar em japonês e eu passei a entender o que ela falava. Ela agradecia pela comida, por tudo. Eu não achava graça nenhuma naquilo. Afinal, eu é que lhe dava o dinheiro para fazer a comida, comprava-lhe presentes, mas ela sempre agradecia a Jesus. Comecei a ficar com raiva de sua atitude e passei a maltratá-la. Durante três anos judiei dela todos os dias. Mas, sua única reação era chorar, orar e jejuar. Ela orava por mim, pelos meus pais, pelos meus parentes. E graças às suas orações, feitas quase sempre em lágrimas, Deus operou muitos milagres em nosso meio, e hoje 29 pessoas da minha família crêem em Jesus. É uma coisa rara no Japão ocorrer tantas conversões em uma única família. Dois são pastores, e, três, evangelistas.
A disciplina de Deus
Quando me casei, eu tinha aproximadamente, em iens, o equivalente a 20 milhões de dólares em dinheiro vivo, além de duas mansões. Minha esposa acabou sabendo que toda aquela fortuna era fruto de um trabalho sujo. A partir de então, ela passou a pedir a Deus que tirasse de mim esses bens, pois ela sabia que, enquanto eu fosse rico, não aceitaria Jesus. E Deus a atendeu. Depois de aproximadamente cinco anos eu perdi tudo. Tive que deixar a minha casa, e o pior é que acumulara uma dívida de 5 milhões de dólares.
Mas, minha esposa fez a Deus ainda um outro pedido. Tenho muita vergonha de falar sobre isso, mas acho que devo dar esse testemunho. Quando nos casamos, eu tinha, além da minha esposa, mais seis mulheres. E eu as apresentei uma a uma, dizendo: essa é a número tal, essa é a número tal. Chocada, minha esposa fez, então, seu segundo pedido a Deus: "Por favor, faça alguma coisa com o corpo do meu marido, para que ele não fique correndo atrás de outras mulheres." Três anos depois, em uma das minhas viagens à Coréia, fui a uma boate onde conheci uma menina que levei para o meu quarto no hotel. Mas, chegando lá comecei a sentir uma forte dor-de-cabeça, não conseguia respirar direito e a barriga doía muito. Dispensei a moça, e cinco minutos depois eu já estava bom. "Puxa, que pena!", pensei, achando que havia me precipitado. Por isso, no dia seguinte levei a mesma moça para o meu quarto. Tudo se repetiu exatamente como na noite anterior. "É um caso de incompatibilidade", raciocinei. Convidei, então, uma outra menina.
Foi pior. Parecia que minha cabeça ia partir-se ao meio; já não doía só a barriga, mas toda a região inferior, até as virilhas; a falta de ar era tanta que pensei que ia morrer. "Por favor, vá embora", pedi à menina. Alguns minutos eu estava bem de novo. Permaneci 14 dias na Coréia. Pela primeira vez, em uma viagem àquele país, não toquei em mulher.
No avião que me levava de volta ao Japão, enquanto pensava no ocorrido o rosto de minha esposa apareceu em minha mente. Lembrei-me de como o Senhor Jesus atendia às suas orações. Por isso, quando cheguei em casa minha primeira pergunta a ela foi: "Você andou orando por mim a respeito de mulheres?" Minha esposa sorriu e perguntou: "Você teve dor de cabeça, não teve? Sentiu-se asfixado, não foi? E teve dor de barriga, certo?" Ela descreveu-me todos os sintomas que eu tivera e na seqüência correta! E só então me revelou: "Olha, quando cheguei ao Japão e você me apresentou aquelas outras mulheres fiquei muito triste. Na Bíblia está escrito que marido e esposa tornam-se uma só carne e por isso ele não pode unir-se a prostitutas. Por isso eu vinha orando por você." Nunca mais fui atrás de mulheres.
A libertação
Quando perdi tudo o que eu tinha, decidi ouvir a minha esposa e comecei a freqüentar a igreja. Na verdade, eu pensava em pedir a Deus ajuda para recuperar a minha fortuna. Afinal, Ele sempre atendia às orações da minha esposa e deveria atender também às minhas. Afinal, eu ainda tinha mais de cem pessoas sob o meu comando e costumava gastar uns 30 mil dólares por mês. Todos os domingos eu ia à igreja e orava uma, duas horas, pedindo dinheiro. De segunda a sábado, no entanto, eu era yakuza, o chefão que mandava e desmandava. Alguma coisa, porém, começou a mudar em mim. Eu já não sentia tanto prazer como antes em ir para meu escritório, onde ficava planejando formas ilegais de ganhar e extorquir dinheiro. Comecei também a sentir medo quando meus comandados se envolviam em brigas e eu tinha que ficar do lado deles. E medo era uma sensação que eu nunca havia experimentado em 25 anos de vida como yakuza.
Além disso, quando ia à igreja, como não podia ficar horas apenas pedindo dinheiro, aprendi a orar também sobre outros assuntos. Passei a orar pelo avivamento do Japão, pelo pastor e pelos irmãos da igreja. Percebi, ainda, que no meu escritório eu não tinha paz, mas quando chegava em casa sentia-me feliz. Conversei com o pastor sobre isso. Ele me disse: "Você deve orar durante 12 dias e deve abandonar a Yakuza". Comecei então a orar, e no décimo dia tive um encontro com o Senhor Jesus. Mais do que isso, Ele faou comigo: "Fui crucificado, morri por você para que você fosse libertado da escravidão do pecado." Por várias vezes o Senhor Jesus repetiu isso para mim. Naquele dia eu deixei de ser yakuza. E apesar de todos os problemas que tal decisão envolvia, dos cem homens sob meu comando, da minha dívida de 500 milhões de iens, não precisei fazer quase nada para me libertar daquela vida. Das mais variadas formas, o Senhor Jesus foi quebrando os vínculos que me prendiam à organização.
As provações
Eu continuava, no entanto, com um problema: como sobreviver honestamente. Eu conhecia muitos métodos de ganhar dinheiro fazendo coisas erradas, mas nenhum fazendo coisas boas. Só sabia orar. Então comecei a orar com muito fervor: "Senhor, eu parei de traficar drogas, parei de traficar armas, tornei-me uma pessoa de bem, por favor, me arruma 5 milhões de iens todo o mês." É claro que Jesus não ouviu a minha oração. Passei então a orar por 3 milhões. Também não fui atendido. Baixei para 1 milhão, e nada. Minha oração era sincera, porque fora da Yakuza eu não tinha mais o que fazer na vida. Eu orava, cinco, seis horas por dia. Para sobreviver pedia dinheiro emprestado a meus pais e meus irmãos. Mas, como eu nunca tinha condições de devolver, eles acabaram se recusando a continuar emprestando. Um dia minha filha pediu-me 100 iens, cerca de um dólar, para comprar sorvete. Como nem esse dinheiro eu tinha, minha esposa misturou um pouco de água com açúcar, colocou no congelador e improvisou um sorvete para a menina.
Eu fiquei observando aquilo e tive pena de mim mesmo. Chorei muito, arrependi-me da forma como estava pedindo dinheiro a Deus, e orei: "Senhor Jesus, estou sofrendo muito, estou disposto a trabalhar, me arrume um serviço."
Pouco tempo depois, a minha irmã, que tinha uma espécie de quitanda, ficou sem um de seus funcionários e pediu-me que eu a ajudasse. Só que eu não queria trabalhar em uma quitanda, muito menos subordinado à minha irmã, mais nova que eu. Abri meu coração diante do Senhor: "Por favor, me arrume outro serviço. Sou um ex-yakuza e seria uma vergonha para mim ter que trabalhar lá na quitanda." Mas, por mais que orasse, Deus não me dava alternativa. E lá fui eu para a quitanda.
Fiquei com minha irmã durante um ano. Nesse período, Deus testou a minha fidelidade a Ele de várias maneiras. Uma delas foi particularmente difícil. No mesmo prédio da quitanda havia um escritório de um yakuza, que havia sido um dos meus comandados. Por isso, quando ia trabalhar eu sempre enterrava a cabeça no boné, tentando esconder meu rosto para não ser reconhecido por ele. Um dia, porém, ele me viu. Pedi-lhe para que guardasse segredo, mas ele revelou a minha situação para o seu chefe. Pouco depois, eu estava recebendo um recado: aquele chefe queria que eu trabalhasse para seu bando, por um salário em torno de 50 mil dólares.
Eu e a minha família vivíamos em condições extremamente precárias, e eu sentia que não iria suportar aquela situação por muito tempo. Por isso, o convite do chefão mexeu comigo. Como sempre, fui falar com Jesus, quem sabe Ele teria outra idéia para nos tirar daquele aperto. Fiz um pedido: "Senhor Jesus, permita-me voltar para a vida de yakuza só por um ano. Vou ganhar muito dinheiro e prometo que vou usá-lo na tua obra." Mas, a única resposta foi: "Você deve continuar na quitanda." E eu obedeci. Então, uma coisa maravilhosa aconteceu.
A vitória
Dois meses depois de eu haver recusado os 50 mil dólares mensais, um antigo colega de escola, dono de uma imobiliária, veio falar comigo e convidou-me para trabalhar com ele, mesmo sabendo que eu pertencera à Yakuza e que não entendia nada de imóveis. Eu tinha certeza de que Deus providenciara aquele encontro, então aceitei o convite. No primeiro ano de trabalho, ganhei o equivalente a 7 mil dólares de comissão; no segundo, 70 mil; no terceiro, 500 mil. E a cada ano meus ganhos têm aumentado. Continuo não entendendo nada de imóveis. Mas, tenho uma arma secreta: a oração. Graças a esse sucesso nas vendas, já pude construir duas igrejas, e pretendo construir outras.
Tudo o que Deus faz obedece a um plano. Quando Ele me mandou trabal;har na quitanda, era para ver se eu seria fiel nas pequenas coisas. E ele permitiu que eu fosse tentado pelo yakuza para ver se eu escolheria Jesus ou o mundo. Eu escolhi Jesus, e por isso Ele me abençoou de maneira maravilhosa.